Futuro dos negócios

Estratégia de Inteligência Artificial no Varejo: Lições do Caso Tendam

29 de out. de 2026 • 7 min de leitura
Estratégia de Inteligência Artificial no Varejo: Lições do Caso Tendam

O movimento global de digitalização corporativa atingiu um novo estágio de maturidade. A rede de moda Tendam, dona de marcas consagradas como Cortefiel, Pedro del Hierro e Springfield, anunciou a nomeação de Mónica Sala, ex-diretora da operadora Orange, para liderar diretamente sua divisão de inteligência artificial.

Esse anúncio não representa apenas mais uma troca de cadeiras no escalão executivo internacional. Ele sinaliza uma mudança profunda de postura: grandes redes deixaram de tratar novas tecnologias como projetos experimentais de laboratório e passaram a colocá-las no núcleo da tomada de decisões operacionais e financeiras.

Para o mercado corporativo brasileiro, a decisão traz ensinamentos valiosos sobre integração de dados, estrutura organizacional e modernização do comércio físico e digital.

O significado da migração de executivos das telecomunicações para a moda

A escolha de uma executiva vinda do setor de telecomunicações para comandar a tecnologia em um grupo de moda revela uma prioridade clara: capacidade de escala e robustez de infraestrutura. Empresas de telecomunicações operam com volumes massivos de dados em tempo real, lidando com milhões de usuários, redes complexas e exigências rigorosas de segurança.

Ao recrutar esse perfil de liderança, o setor varejista busca superar iniciativas isoladas que geram pouco retorno financeiro. O objetivo passa a ser a construção de uma base de dados unificada, capaz de alimentar sistemas autônomos de ponta a ponta.

No varejo tradicional, muitas empresas cometeram o erro de encarar recursos inteligentes apenas como ferramentas de apoio criativo para campanhas de marketing ou assistentes básicos de atendimento. Quando uma diretoria executiva específica é criada sob o comando de especialistas em grandes volumes operacionais, a mensagem é direta: a prioridade agora é a eficiência operacional e a previsibilidade de receita.

As áreas do comércio mais impactadas por sistemas inteligentes

A aplicação prática dessa transformação atinge setores críticos da cadeia de suprimentos e do atendimento ao consumidor. Uma estratégia corporativa bem estruturada costuma gerar retornos expressivos em quatro pilares principais:

Previsão de demanda e gestão de estoque: A ruptura de estoque e o excesso de produtos sem giro representam dois dos maiores ralos de lucratividade nas lojas. Algoritmos preditivos analisam histórico de vendas, oscilações climáticas, tendências em redes sociais e indicadores econômicos para determinar a produção ideal por região.

Precificação dinâmica e promoções personalizadas: Em vez de descontos generalizados que reduzem a margem de lucro de toda a rede, sistemas analíticos ajustam preços em tempo real com base na elasticidade da demanda e no perfil de compra de cada cliente.

Logística reversa e redução de devoluções: O comércio eletrônico enfrenta custos crescentes com a devolução de mercadorias, especialmente no vestuário. Modelos visuais e recomendações precisas de tamanhos diminuem a taxa de retorno de produtos, preservando a margem operacional.

Experiência do cliente integrada: Sistemas que conectam o comportamento do consumidor nas lojas físicas aos seus hábitos no ambiente digital permitem um atendimento personalizado, aumentando a fidelização e o valor do cliente ao longo do tempo.

O reflexo dessa tendência no mercado varejista brasileiro

O cenário empresarial brasileiro apresenta particularidades que tornam a adoção de tecnologias analíticas ainda mais urgente. O varejo nacional opera em um ambiente de alta complexidade tributária, juros elevados, custos logísticos continentais e margens frequentemente apertadas.

Grupos nacionais de moda e redes de departamento enfrentam o desafio de integrar canais físicos e digitais com estoques distribuídos por múltiplos centros logísticos. Erros no cálculo de demanda geram despesas pesadas com transporte e armazenamento prolongado.

A movimentação observada em grandes conglomerados europeus aponta o caminho para empresas médias e grandes no Brasil. As redes que já começam a colher resultados consistentes não são aquelas que apenas utilizam ferramentas prontas de mercado, mas sim as que reorganizam sua arquitetura interna de dados para sustentar automações sólidas.

Além disso, a qualificação das equipes locais exige lideranças com visão ampla de negócio. A criação de cargos de diretoria focados exclusivamente nessa transição garante que os projetos tecnológicos estejam alinhados com as metas financeiras e de governança da empresa.

Como estruturar uma frente interna de inteligência artificial

Organizações que desejam preparar suas operações para os próximos anos precisam evitar armadilhas comuns, como a contratação de plataformas caras sem a devida preparação estrutural. A evolução sustentável costuma seguir etapas fundamentais:

Organização da casa de dados: Antes de qualquer automação avançada, a empresa precisa centralizar informações de vendas, comportamento de clientes, controle de estoque e fluxo financeiro em uma estrutura limpa e acessível.

Definição clara de metas financeiras: Todo projeto deve nascer atrelado a um indicador de desempenho mensurável, seja a redução de custos com estoques parados, o aumento da taxa de conversão no site ou a velocidade no atendimento ao cliente.

Criação de liderança dedicada: A responsabilidade pela transformação não pode ficar dispersa entre diferentes gerências. Uma liderança com autoridade executiva, similar ao modelo adotado pela Tendam, assegura foco contínuo e alocação correta de orçamento.

Capacitação contínua dos colaboradores: A tecnologia só entrega valor real quando adotada no dia a dia por gerentes de loja, equipes de compra, analistas de logística e especialistas em atendimento. O treinamento humanizado reduz a resistência interna a novos processos.

Olhar estratégico para a nova fase do mercado

A decisão de um grande grupo de moda internacional de investir em liderança de ponta para guiar sua transformação tecnológica comprova que a inteligência artificial deixou de ser uma promessa futurista para se tornar um requisito de sobrevivência empresarial.

Para os líderes de negócios no Brasil, o recado é evidente. A competitividade nos próximos anos não dependerá apenas da qualidade do produto ou da localização das lojas, mas sim da rapidez e precisão com que a empresa transforma dados brutos em decisões comerciais lucrativas.

Perguntas Frequentes

P: Por que grandes marcas de varejo estão contratando executivos de tecnologia para cargos de alta liderança? R: Porque essas empresas perceberam que sistemas de dados são agora a espinha dorsal de suas operações. Líderes experientes garantem que a tecnologia seja usada para reduzir custos logísticos, evitar estoques parados e elevar a rentabilidade global do negócio.

P: Quais os principais benefícios de aplicar inteligência artificial no setor de moda? R: Os maiores ganhos estão na previsão de demanda, redução de devoluções de compras online e recomendação de produtos sob medida. Essas aplicações evitam promoções forçadas e protegem a margem de lucro das coleções.

P: Empresas de médio porte no Brasil também podem adotar essas estratégias? R: Sim, desde que comecem organizando seus dados internos e escolhendo dores específicas do negócio para resolver. O foco inicial deve ser a eficiência de estoques e o relacionamento com a base de clientes já existente.

P: Ter uma liderança específica para essa área é indispensável para todas as empresas? R: Nem todas as organizações precisam de uma diretoria exclusiva de imediato, mas precisam de alguém com autoridade e autonomia para conduzir a agenda digital. Sem um responsável claro, iniciativas de automação costumam perder prioridade diante das urgências rotineiras.

P: Qual é o primeiro passo para preparar uma empresa tradicional para essa transformação? R: O passo inicial é auditar e unificar as fontes de dados da organização, garantindo que informações de vendas, estoque e cadastro de clientes estejam atualizadas e integradas. Sem dados de qualidade, nenhuma ferramenta tecnológica entrega resultados confiáveis.

Sua empresa já possui uma liderança estruturada para transformar dados operacionais em vantagem competitiva, ou suas decisões estratégicas ainda dependem apenas de intuição?

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